A arte é um mero produto de luxo?

[Originalmente publicado em francês no site mediapart.fr, em 20 de Outubro de 2014. Traduzido por Eduardo Liron e Revisado por Dalila Martins] A Fundação Louis-Vuitton, um novo museu de arte contemporânea criado por Bernard Arnault no Bois de Boulogne, na França, foi inaugurada na segunda feira, 20 de outubro de 2014, por François Hollande. Escritores, filósofos e artistas criticam o papel crescente dos grandes grupos financeiros na arte contemporânea e denunciam os “nobres mecenas” que “na verdade não são mais que especuladores”.
O crescente papel dos grandes grupos financeiros ligados à indústria do luxo, na arte contemporânea, suscita ainda menos debates que aquele das tiranias petroleiras. Os intelectuais, críticos e artistas que aqui trabalham, ainda que tradicionalmente inclinados às posturas “radicais” e aos discursos contestadores, agora parecem paralisados pelo medo da fuga de capitais, como se a menor ressalva emitida lhes expusesse a represálias que lhes sacariam as carteiras. Neste ambiente tipicamente tagarela, que bem sabe ser rebelde, um verdadeiro código de silêncio passa a reinar assim que se fala em financiamento. Quando se emitem dúvidas sobre a imparcialidade deste ou daquele patrocinador (no sentido de “mecenas”), geralmente se responde que ninguém é trouxa, mas não há alternativas — é a famosa TINA (There Is No Alternative). O desengajamento dos Estados, empobrecidos por uma crise na qual estes mesmos patrocinadores desempenharam um papel central, condenou de fato o mundo da arte e da cultura a mendigar aos muito ricos. Nós não nos apoiamos mais em modelos de virtude. Quem neste meio não participou uma vez ou outra de um evento realizado por uma organização privada? Mas, quando as maiores fortunas da França rivalizam para intervir massivamente na produção artística, os argumentos clássicos em favor deste tipo de financiamento nos parecem fracos e hipócritas. Sempre insistimos, perante manifestações artísticas assim “financiadas”, na estanquidade da separação entre a atividade comercial do “financiador” e a atividade cultural da fundação que carrega seu nome. De fato, foi-se o tempo em que os grandes mecenas ajudavam as artes sem nelas se meterem. Eles se contentavam com uma pequena menção em fonte 8 ao fim da terceira contracapa, com uma placa esmaltada no canto de um edifício, com uma palavra de agradecimento no preâmbulo. Mas nossa época é de anúncios estrondosos, de festas faraônicas e de propagandas gigantescas. Não damos mais carta branca para que um artista possa permanecer à sombra: lhe encomendamos a decoração de uma loja no Champs-Élysées ou a aparição na inauguração de uma sucursal em Tóquio. A loja de bolsas só se separa da galeria por uma fina divisória e as obras acabam por se confundir com os acessórios, apresentadas em pedestais e entregues em embrulhos. As lojas de luxo, doravante, querem-se protótipos de um mundo onde a mercadoria se torna arte porque a arte é mercadoria, um mundo onde tudo se torna arte porque tudo é mercadoria. É verdade que os novos mestres do mercado de arte souberam, ao construir suas passarelas douradas, corromper os especialistas e curadores mais reputados, contribuindo assim com o empobrecimento intelectual de nossas instituições públicas. Mas isso sem de modo algum lhes dar meios de promover uma ideia da arte enquanto tal, pois o patrocinador não para de intervir nas transações que lhe interessam pontualmente. Fundação Louis-Vuitton Certamente não há nenhuma estanquidade entre os negócios e os interesses artísticos e nem há, com efeito, inocência ou desinteresse nos recursos que essas pessoas dispensam. Seus empregados dão seu máximo para nos lembrar que o mecenato é uma antiga e nobre tradição. Sem remontar ao mecenas romano – delicado amigo dos poetas – eles citam Lorenzo de Medici, Jacques Doucet ou Peggy Guggenheim, dos quais [François-Henri] Pinault e [Bernard] Arnault seriam os dignos sucessores. Mesmo se eles fossem estes amadores gentis e esclarecidos que estampam as páginas de cultura dos jornais – e não os interesseiros que nos revelam as páginas de economia –, os fatos contábeis falam por si. A essência do real mecenato está na doação, no fundo perdido ou, para falar como Georges Bataille, “improdutivo”. Os verdadeiros mecenas perdem dinheiro, e é apenas por isso que merecem um reconhecimento coletivo. Ora, nem o senhor Pinault nem o senhor Arnault perderam um centavo nas artes. Não somente eles isentam da receita uma parte dos recursos que ainda não estão alocados em algum paraíso fiscal, mas também adquirem, em prol de mais lucro, salas de leilões, e canalizam verba pública (como com a recente exposição bem denominada À double tour de la Conciergerie) para eventos que visam apenas a aumentar a cotação do punhado de artistas em que têm temporariamente apostado. Eles falseiam o mercado ao se apropriar de todos os elos da cadeia, buscando glorificar e desglorificar. Em uma palavra, eles especulam, com a colaboração ativa das grandes instituições públicas, que trocam favores por aumento do tesouro. As já maiores fortunas da França enriquecem, assim, ainda e cada vez mais através da arte. Estes que se apresentam como os nobres mecenas não são mais que verdadeiros especuladores. Quem não sabia? Mas quem o dizia? Um argumento ainda mais frágil em favor deste modo de financiamento da arte apela para o respeito ao espírito empreendedor e para a consideração quanto aos altos interesses industriais da França. Não devemos reconhecer estes florões do CAC 40 pela ajuda destinada à criação? Basta um golpe de vista sobre a história dos grupos financeiros, como os dos irmãos inimigos Kering de Pinault e LVMH de Arnault, para compreender que não se tratam mais, já há muito tempo, de grupos industriais. Sua política é clara e estritamente financeira e somente a lógica do lucro determina seus abandonos e aquisições de empresas. Isto aprenderam custosamente milhares de mulheres ao serem demitidas depois de ter consagrado suas vidas profissionais em La Redoute. A grande empresa hoje em dia perdeu sua fábrica neste fluxo tenso; ela perdeu sua produção industrial em meio à selva asiática. Sua política de caixa-dois e de evasão fiscal não tem nada a ver com os interesses nacionais, como prova a recente façanha (coup d’éclat) do senhor Arnault na Bélgica. Esta é a mesma política – obcecada por lucros e dividendos a curto prazo – que provocou a mais grave crise econômica dos últimos cinquenta anos, que pôs de joelhos nações inteiras e lançou milhões de nossos vizinhos europeus à miséria e ao desespero. daniel-buren-is-showing-fondation-louis-vuitton-in-a-new-light-2016-exhibition De nada importa a imoralidade do capitalismo encarnada por estes novos príncipes, eles nos dizem: as manifestações artísticas não sofrem nenhuma consequência dela, que age em outra esfera. Este argumento cínico se defronta com a evidência da orquestração midiática. Porque a nova cultura empreendedora crê no “evento” como em um novo Deus. A finança e a comunicação substituíram a ferramenta industrial e a equipe de vendas. A arte, boa ou ruim, produz o evento, frequentemente por azar, às vezes apesar de sua vontade. Ela flutua como o dinheiro, e seu movimento pode acabar por se tornar valor de mercado. Para uma sociedade que sonha com a velocidade, indexada sobre os fluxos, ela tem o mesmo perfil dos objetos de desejo. Ela oferece, portanto, aos novos consórcios financeiros, uma vitrine ideal. Ela pode ser brandida por eles como seu projeto existencial. E para que esta simbiose neoliberal seja viável, basta que a arte se deixe absorver, que os artistas renunciem a toda autonomia. Não é de admirar, então, que o academicismo de hoje esteja projetado: elegante e suave, eletrizante e fotogênico, ele é facilmente embrulhado no white cube do museu, facilmente desembrulhado nos calabouços dos castelos de cartas financeiros. Os museus privados de nossos bilionários são os palácios industriais do presente. Ainda podemos acreditar que a apropriação de nosso trabalho e a caução de nossa presença não passam de um elemento negligenciável de sua estratégia? Há, dentre nós, quem se considere não apenas de esquerda, mas marxistas, até revolucionários. Podem eles se satisfazer com tal embuste? O poder esmagador do inimigo faz dele um amigo? Nestes tempos de desemprego massivo, de precarização das profissões intelectuais, de desmantelamento dos sistemas de proteção social e de covardia governamental, nós, artistas, escritores, filósofos, curadores e críticos, não temos nada melhor a fazer que lustrar o brasão de um desses Leviathans financeiros, que contribuir, mesmo que pouco, com sua branding? Nos parece urgente, em todo caso – no momento em que uma fundação riquíssima tem direito, para sua abertura, a uma celebração, no Centre Beaubourg, de seu arquiteto-estrela (Frank Gehry) – exigir das instituições públicas que elas parem de servir aos interesses dos grandes grupos privados e se unam aos coros artísticos. Nós não temos lições de moral para dar. Nós somente queremos abrir um debate que já tarda, e dizer porque nós não vemos motivos em comemorar a inauguração da Fundação Louis-Vuitton pela arte contemporânea. louis-vuitton-centre-art-contemporain Pierre Alferi, escritor Giorgio Agamben, filósofo Madeleine Aktypi, escritora Jean-Christophe Bailly, escritor Jérôme Bel, coreógrafo Christian Bernard, diretor do Museu de Arte Moderna e Contemporânea (MAMCO) de Genebra Robert Cahen, artista Fanny de Chaillé, coreógrafa Jean-Paul Curnier, filósofo Pauline Curnier-Jardin, artista Sylvain Courtoux, escritor François Cusset, escritor Frédéric Danos, artista Georges Didi-Huberman, historiador da arte Suzanne Doppelt, escritora Stéphanie Éligert, escritora Dominique Figarella, artista Alexander García Düttmann, filósofo Christophe Hanna, escritor Lina Hentgen, artista Gaëlle Hippolyte, artista Manuel Joseph, escritor Jacques Julien, artista Suzanne Lafont, artista Xavier LeRoy, coreógrafo Philippe Mangeot, membro da redação de Vacarme Christian Milovanoff, artista Marie José Mondzain, filósofa Jean-Luc Nancy, filósofo Catherine Perret, filósofa Olivier Peyricot, designer Paul Pouvreau, artista Paul Sztulman, crítico Antoine Thirion, crítico Jean-Luc Verna, artista Christophe Wavelet, crítico

AGRESTE, ou Agrupamento de Estudos Excêntricos, é um rincão virtual para intervenções e instalações de movimentos e pulsões marginais (Precarizadxs, Terroristas, Extrañxs, Messias, Negradas, etc.). No Blog da Zagaia, o periódico AGRESTE mantém uma coluna de traduções.

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